sexta-feira, 22 de julho de 2016

O LOUVOR







O LOUVOR E NOSSA RELAÇÃO COM DEUS





Sabe-se que a Igreja tem progredido muito na área do louvor. Pode-se dizer até que Deus tem restaurado o ministério de louvor de sua Igreja; porém, existem algumas preocupações normais àqueles que buscam, na Bíblia, base para sua adoração e tem intimidade com o Deus digno de todo louvor. Nestes últimos anos, alguns ministérios têm enfatizado, na adoração e no louvor, a Igreja como Noiva. Claro que isso é perfeitamente bíblico. As Escrituras são claras em mostrar que o povo de Deus e a Igreja de Cristo são uma noiva e Jesus Cristo, o Mestre e Salvador, o seu Noivo Amado. Porém, há alguns questionamentos a serem colocados diante de algumas letras de músicas. Por exemplo: Será que podemos nos relacionar, numa adoração pessoal, como se Jesus fosse meu noivo? Será que posso usar palavras de intimidade de uma mulher numa relação pessoal para com Deus? Será que a palavra “apaixonar-se por Jesus” é uma expressão correta? 


A razão desse questionamento é porque essa linguagem é completamente desprovida de base da linguagem dos Salmos (que é o paradigma principal de louvor e adoração) e dos ensinamentos dos Apóstolos em geral como um relacionamento pessoal. Vemos os salmistas adorando a Deus como Senhor (Sl 1.6; 5.8), Rei (Sl 2.6; 5.2) e Pai (Sl 27.10; 45.10; 68.5; 89.26; 103.13); porém, jamais numa linguagem de marido e mulher como um relacionamento individual. Existe apenas o Salmo 19.5 que fala que o Sol sai como noivo de seus aposentos, mas não tem nada a ver com relacionamento de adoração. No caso do Salmo 45, apesar de ser chamado de cântico de amor e de demonstrar o Messias como um noivo, mas a noiva e a rainha são o seu povo, Israel. Isso é demonstrado pela singularidade de uma só noiva e pela demonstração que “a Filha de Tiro” daria donativos, querendo dizer do povo de Tiro como a expressão que profeta falou em Is 47. O Salmo não diz respeito a uma pessoa em si. Isso é respaldado pelas palavras de Paulo em Ef 5.29-32. É muito estranho que os salmistas omitissem essa linguagem no relacionamento pessoal cantada atualmente pelos ministros atuais de louvor. É muito estranho que os salmistas adorassem a Deus somente como Pai, Senhor e Rei e esquecessem um aspecto da adoração que somente agora no século XXI é descoberto. Isso é muito estranho e difícil de engolir.

Muitos têm dito que o livro de Cantares de Salomão é uma prova dessa linguagem, mas trazer essa alegoria de Cantares para uma relação pessoal com Deus é exagero, pois o livro de Cantares traz princípios de casamento, de relação sexual e não de adoração. Pode-se até pegar por analogia algumas passagens para relacionar com Cristo e a sua Noiva, a Igreja; mas numa relação pessoal, fica a desejar. Como alguém poderá dizer a Jesus “beija-me com os beijos de tua boca, porque melhor é o teu amor do que o vinho” (Ct 1.2)? 

É bem verdade que a Bíblia mostra esse simbolismo de Noiva para a Igreja ou o povo de Deus; mas o que se nota é que jamais foi usado ou ensinado para uma relação pessoal com Deus. Todas as vezes que a Bíblia fala de Noiva mostra o todo do povo, nunca a individualidade (Is 49.18,19; 61.9-11; 62.4-6). Todos esses textos falam do povo de Deus no sentido geral. É verdade também que numa generalização pode-se pensar num particular, mas isso tem que ser comprovado por outras passagens; mas no caso de Noiva, não é isso que acontece. Paulo falando aos Efésios 5.22-33 ele faz uma relação entre Jesus como Noivo e o casamento relacionando isso com a analogia do corpo. Paulo faz questão de colocar juntamente com o simbolismo da Noiva e Noivo mostrando que ele é Salvador do Corpo (Ef 5.23; 28; 29) porque o simbolismo de Noiva tem que ser visto como o simbolismo de Corpo. Uma pessoa sozinha não pode ser o Corpo de Cristo. Paulo diz que nós sozinhos somos membros do Corpo (Ef 5.30). Se alguém diz que sozinho ele é o Corpo de Cristo é um absurdo, porque Jesus somente tem um corpo e não vários, como fala Paulo aos Coríntios (1 Co 12.12; 20), mas se alguém diz que é um membro desse corpo, está correto, porque o corpo é formado do todo. Por isso que Paulo, no verso 32, afirma que se refere a Cristo e à Igreja. Paulo enfatiza isso para mostrar que não se pode dizer que alguém sozinho é a Noiva de Cristo, porque Cristo só tem uma Noiva, não várias. Somos parte do corpo dessa Noiva e não, sozinhos, ser a noiva de Cristo. Por isso que em Apocalipse 21.2,3 fala da noiva ataviada relacionado-a com a Nova Jerusalém, pois o povo de Deus é simbolizado como a Nova Jerusalém como diz o autor aos Hebreus 12.22,23. Portanto, Relacionar-se como mulher ou noiva é, pelo menos, estranho ao modelo de adoração bíblica que Deus colocou na sua Palavra.

As relações pessoais mudam de acordo com as relações com as pessoas. Por exemplo: a relação para com a esposa é diferente da relação com os filhos, amigos e pais. Os gregos chegavam a usar quatro verbos para expressar isso, sendo que apenas dois vêm na Bíblia: agapaö, fileö. Os outros não aparecem, embora que um só seja raiz de um outro verbo (storgeö). Mas qual a forma que Deus escolheu para uma relação pessoal com ele? A Bíblia dá o modelo de Pai, numa relação pessoal de filho para um Pai amoroso. Começa-se por Jesus: Ele ensina a seus discípulos a orarem chamando Deus de PAI, não de Noivo (Mt 6.9-13); mas alguém pode dizer: isso é na oração. Os judeus não diferenciavam a adoração da oração (como também não se pode fazer isso) por isso que eles oravam três vezes ao dia. Quando Jesus falava sobre intimidade com o Deus eterno, ele conta a parábola do filho pródigo, onde o Pai acolhe seu Filho e traz à sua intimidade. Algumas pessoas, por falta de conhecimento, dizem que na parábola das dez virgens é uma prova que podemos nos relacionar diante de Deus como Noivas. Não se precisa refutar muito isso, porque é parábola das dez virgens e não das dez noivas. As virgens eram damas de honra que auxiliavam a Noiva no casamento e esperavam o Noivo com lâmpadas acesas. O apóstolo Paulo, por duas vezes, afirma que o Espírito testifica com o nosso Espírito que somos Filhos de Deus, clamando Aba, Pai (Rm 8.14-16; Gl 4.6,7). Essa expressão é de pura intimidade; como se fosse papai. Paulo ensina que o Espírito de Deus testifica que somos filhos e não noivas. Ora, se o Espírito de Deus testifica com o nosso Espírito que somos Filhos de Deus e somos convidados a chamar Deus de Aba, Pai. Como vou me relacionar com palavras de relacionamento de mulher para homem? No livro de Hebreus, a Bíblia fala que o Pai disciplina o filho que ama (Hb 12.5-11). Ora, essa linguagem é de Pai, pois na relação pessoal, Deus se revela como Pai (Hb 12.7). Nesse verso está claro que Deus nos trata pessoalmente como FILHOS, não como esposa. Portanto, é estranho um tratamento de intimidade homem e mulher ao texto Bíblico. Existem músicas que parecem uma demonstração de carícias e não uma adoração majestosa ao Filho de Deus. Isso parece espiritual, mas de uma certa forma distorce a relação correta para com Deus tirando a sua majestade e soberania na intimidade. Quando nos relacionamos com Deus como Pai e filho, apesar da intimidade, não esquecemos que ele é o Pai nosso que está nos céus, que ama e disciplina, que ele faz tudo para o nosso bem sem que nós entendamos.

Quanto à linguagem “estou apaixonado por Jesus”. Tem-se que admitir que se quer falar de uma vida voltada para Deus em profunda devoção e santidade; porém, essa palavra está equivocada, porque pode conotar várias coisas. Primeiro, nós precisamos atentar que a palavra paixão ela é completamente extinta para a relação com Deus. Não há uma só base bíblica para, pelo menos, torcer sobre isso. Paixão na Bíblia, escrita pelas palavras gregas epithumia – concupiscência; pathos – paixão, sofrimento, todas elas são relacionadas à carne e ao pecado. Porém, tanto o VT como o NT ordena-nos a AMAR – agapaö (Dt 6.4; Mc 12.29). A Bíblia diz para nós amarmos o Senhor, não apaixonar-se. A paixão é sentimental, passageira, carnal, mutável; o amor é permanente, prático e divino porque Deus é Amor. Jesus autentica esse mandamento dizendo da mesma forma: amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Aqui está o homem completo que, em todos os âmbitos, deve amar ao Senhor. Para a paixão, precisa-se sentir algo, pois é sentimental. Isso jamais poderia ser usado para adoração a Deus. Não se pode adorar a Deus somente quando se sente alguma coisa; mas se deve adorá-lo em todas as situações. Deve-se buscá-lo mesmo quando não se sente vontade nenhuma de fazer isso. Por isso que tem o mandamento de buscar o Senhor (1Cr 16.11; Sl 105.4; Is 55.6; Jr 29.13; Sf 2.3). Portanto, pode-se entender essa linguagem, pois pela influência errada de ministros de louvor, a igreja passa a usar; mas embora que se entenda, é melhor evitar o que se pode interpretar erroneamente e usar a linguagem que possa expressar o real sentido para uma adoração perfeita e agradável a Deus.

Há aqueles que defendem baseado na carta de Jesus no Apocalipse à Igreja de Éfeso (Ef 2.1-7), mas, os que advogam isso, desconhecem alguns fatores exegéticos e hermenêuticos importantes. A expressão usada nas traduções, às vezes, despista o sentido, pois a expressão grega usada com o adjetivo prötön é atributiva, mostrando ênfase na qualificação do adjetivo principal, porque o adjetivo prötön quer dizer primeiro, principal, essencial. Conforme o contexto, deixa claro que diz respeito a principal, mesmo porque nos tempos de João não se relacionava amor à paixão. Isso é um erro grave. Essa relação veio com Camões na idade Média. O substantivo agapë no texto grego, inclui prática. O amor de Deus tem que ser prático, por isso que no verso cinco Jesus exorta a Igreja a voltar às principais obras, que seria o amor. Paulo, escrevendo à própria igreja de Éfeso diz que eles deveriam andar em amor (Ef 5.2-5). Nos versos seguintes, Paulo exorta a igreja a não andar em práticas contrárias à prática do amor.

A expressão ten agapën sou ten prötën seria melhor traduzida se fosse: deixastes o teu amor, aquilo que é principal. Notem que o adjetivo atributivo vem depois do substantivo com o artigo, mostrando uma aposição. Portanto, fica mais fiel não ver esse amor como Camões via – paixão, como se Jesus dissesse que deixaram a primeira paixão por ele. Não. Isso não procede. Jesus estava exortando que eles não estavam vivendo o amor prático, que é algo principal. Eles tinham uma ortodoxia exemplar, mas não acompanhada de prática que é outro extremo.

É digno de nota que quando Jesus chegou a Pedro para falar ao seu coração ele não perguntou: Pedro tu és apaixonado por mim? Pedro, tu casarias comigo (mesmo no bom sentido e simbolicamente)? Não. Jesus perguntou: Pedro, tu me amas? Jesus usou os dois verbos gregos no NT agapaö e fileö, mas não usou palavra nenhuma de relação de mulher para um homem ou coisa parecida (Jo 21.15-17).

Tem-se que admitir que não se está questionando a unção de pessoas que professam essa esdrúxula forma de adoração, mas as palavras a um Deus Pai, Filho e Espírito Santo que nos ensinou a chamá-lo de Pai, adorá-lo como Rei e inclinar-nos diante dele como Senhor, mas nunca como um namorado, noivo. A Noiva de Jesus é impessoal, não pessoal; é uma metáfora, não literal, assim como a Igreja é impessoal, mas é formada de pessoas.

O objetivo desse pequeno ensaio é trazer uma oportunidade a um debate mais amplo e levar a Igreja unir a sua ortopraxia à sua ortodoxia. Unir a sua prática com os princípios eternos de Deus, não distorcendo o que as Escrituras dizem, pois Deus busca verdadeiros adoradores que o adorem em espírito e em verdade, ou seja, dentro da verdade de Deus (Jo 4.24)




































































































































PEDRO TU ME AMAS?

                                                         PEDRO TU ME AMAS? João 21:15-17




  No mundo da erudição e dos estudiosos da Bíblia paira uma mania e um perigo: quando um livro é escrito ou um escritor traz uma tese, geralmente os outros eruditos seguem sem questionar, sem falar nos estudantes de teologias e seminaristas. 


  Um exemplo disso é a exegese truncada e defeituosa de Jo 21.15-17 dizendo que não há diferença de significado entre os verbos ἀγαπάω agapao e φιλέω phileo


 Apesar de respeitar as interpretações de alguns autores, inclusive da Editora Vida Nova, bem como Luiz Sayão que fez um breve apanhado dessa exegese na revista Enfoque, tem-se que afirmar que a negação das diferenças de significado desses dois verbos consiste em lapsos de exegese, bem como erros sutis de hermenêutica.

  
Toda língua tem palavras com suas denotações e conotações diversas. Apesar de que no português o verbo amar não tem vários significantes, mesmo tendo vários significados, nas outras línguas, não é assim. 

Para os gregos eles tinham, pelo menos quatro significantes para o que traduzimos para amar:
ἀγαπάω agapao, φιλέω phileo, ἐράω erao e στέργω stergo. 

Para os gregos o uso dessas palavras tinham acepções especiais e distintas, dentro do significado semântico da época. 

Por exemplo: o verbo φιλέω queria dizer ter afeição, incluindo sentimentos. Segundo o Dr. W. Gunther no Dicionário Internacional de Teologia do N.T. ele afirma que "as idéias que se vinculam com φιλέω phileo não têm ênfase claramente religiosa". Para os gregos o verbo φιλέω phileo leva um significado de um gostar mais subjetivo, instável, amigável. 

Para o verbo ἀγαπάω agapao, a literatura secular grega denota como tratar com respeito, dar boas vindas, estar contente com. Todas essas acepções demonstram objetividade e prática. Há ocasiões que o significado é alguém favorecido por um deus (cf. Dio. Cris., Orationes 33, 21, citado pelo DITNT, Editora Vida Nova Vol. 1). Há ocorrência do substantivo ἀγάπη como título à deusa Ísis (P. Oxy. 1380, 190; século II d.C.). 

O que se pode notar claramente pelas acepções do grego secular é que os significados eram claramente distintos em suas essências. Um demonstrava significado mais subjetivo, de amizade; o outro, mais prático e relacionado a deuses. 

Se os escritores que escreveram o NT usavam a língua grega, tem-se que esperar que eles atentavam para as diferenças de significados, pois, caso contrário, eles entrariam numa confusão semântica.

F. F. Bruce, defendendo as palavras como sinônimas no seu comentário de Jo 21.15-17, demonstra que em Gn 37.3 na LXX é usado o verbo ἀγαπάω agapao, mas no verso posterior v.4 é usado φιλέω phileo. Com isso ele chega a uma conclusão que o texto de João 21 as palavras são sinônimas também. No mesmo parágrafo do comentário, ele escreve: "o verbo ἀγαπάω agapao em si não denota necessariamente um amor mais sublime; isto só ocorre quando o contexto o deixa evidente" (BRUCE, F. F. João, Introdução e Comentário, Vida Nova pág. 345). Seguindo o conselho do Mestre F. F. Bruce é que se discorda dele mesmo, porque o contexto e a análise exegética demonstram que em João 21.15-17 os verbos têm significados diferentes. 

Essa alusão de Gn 37.3,4 não é decisiva para se dizer que em João 21.15-17 os verbos ἀγαπάω eφιλέω têm significados semelhantes. Primeiro que os rabinos eruditos que escreveram a LXX poderiam ter interpretado o verbo ´aheb no verso 4 como uma afeição além do significado do verso anterior, pois isso era normal da tradução rabínica da LXX. 

Segundo, mesmo que tenha o mesmo significado, não desfaz o contexto exegético de João 21.15-17. Na linguagem, embora que possa até haver um significado pelo outro, deve-se ter todo o cuidado e não pensar que todas as vezes que algumas palavras diferentes vierem num mesmo texto são sinônimas. 

Apesar de que para a nossa língua uma palavra possa parecer sinônima, o público alvo primitivo da língua original via claramente a diferença. 

Por exemplo, temos as advertências de Paulo aos Gálatas 5.19, 20 onde ele escreve μοιχεία (moicheia), πορνεία (porneia), ἀκαρθαρσία (akartharsia), ασελγεἰα (aselgeia) e que todas essas palavras nos idiomas ocidentais quase têm o mesmo significado. Não obstante haver palavras que os evangelistas usaram uma pela outra como o verbo μοιχέω (moicheo) derivado do substantivo μοιχεία (moicheia) em Mt 5.28, em Gálatas ele coloca como distinto, pois o que para nós quase não tem diferenças, para o público grego havia distinções consideráveis. 

No outro verso de Gálatas Paulo dá mais um exemplo: θυμοί (thumoi)ἐριθεία (eritheiai), διχοστασία (dichostasia)αἱρέσις (hairesis)Na língua portuguesa essas palavras quase não têm diferenças em significado, pois todas elas dizem respeito a contendas e divisões. Porém, o que para nós o significado não tem quase diferença, para o público alvo havia uma considerável distinção de significado. 

Portanto, deve-se ter muito cuidado ao dizer que duas palavras têm a mesma denotação num texto, exceto se o contexto e a gramática confirmarem claramente, que não é o caso de João 21.15-17.

Um dos argumentos, até infantil, usado é que Jesus falou em aramaico e no aramaico não há diferenças nos verbos. Embora que não se possa provar essa declaração, pois não se saberia quais as palavras que Jesus e Pedro usaram especificamente no diálogo em aramaico, o texto inspirado é o texto que João escreveu na língua grega. Não obstante que Jesus tenha falado em aramaico com Pedro, é irrelevante saber quais as palavras em aramaico, porque o inspirado foi o texto final escrito em grego koinê e nesse há diferenças muito óbvias.

Quem mais explorou o verbo agapao ἀγαπάω foi o evangelista João. Ele demonstra que esse amor é uma prática sacrificial completamente objetiva em prol de alguém (Jo 3.16; 15.12,13; 1 Jo 4.10). João sabia que os dois grandes mandamentos falados por Jesus eram com esses verbos na LXX (Mc 12.29-31), mostrando com isso a supremacia em relação a phileo φιλέω. Quando João cita φιλέω phileo separadamente como em 5.20 do amor do Pai para com o Filho; 16.27 do amor do Pai para com o homem, não implica dizer que todas as vezes que esse verbo vier seja sinônimo de apapao ἀγαπάω

Inclusive pode-se pensar também que João queira mostrar uma afeição da parte do Pai para com o Filho e para com aqueles que os seguem, já que Deus é um ser pessoal. É difícil pensar que João, tendo demonstrado o amor de Deus sacrificial e gracioso em ἀγαπάω agapao, agora queira colocar uma palavra que demonstre um amor humano, instável e afetivo no lugar do que ele mesmo escreveu. Se isso foi um estilo de João, por que ele não usou φιλέω phileo porἀγαπάω agapao nas suas epístolas? Todo escritor usa uma forma estilística com o objetivo de embelezar sua obra. Se esse foi o caso, por que João não usou nas epístolas onde mais falou de amor? Outro fator importante: usar o verbo φιλέω phileo separadamente é diferente de usá-lo como sinônimo deἀγαπάω agapao no mesmo contexto. Dessa forma nenhum escritor usou no NT, exceto João. Será que todos os outros escritores eram tão incultos que somente João usou esse estilo para essas duas palavras e esse somente no diálogo de Jesus e Pedro?
Apesar de Paulo ter usado φιλέω phileo também em 1 Co 16.22, então, por que Paulo não usou φιλέω phileo por ἀγαπάω agapao em 1 Co 13 e em outras passagens no mesmo contexto? será que Paulo não tinha esse estilo paraἀγαπάω agapao e φιλέω phileo? Deve-se lembrar que o verbo usado separadamente não é a mesma coisa que usá-lo num mesmo contexto. Portanto, esses poucos versos que φιλέω phileo é usado no Evangelho de João não são decisivos para desfazer as diferenças de significado na interpretação de Jo 21.15-17. O Dr. William Hendriksen, um dos mais respeitados exegetas reformados do NT, admite as diferenças desses verbos. Ele afirma que as diferenças deles estão entre devoção e apenas emoções. Hendriksen, comentando o verso 16 diz: "Pedro dá a mesma resposta de antes. Ele ainda não ousa afirmar que possui o amor de teor mais elevado" (Comentário do NT, pág. 927, Cultura Cristã). Realmente quando se analisa o texto de uma forma mais profunda, não se tem alternativa, se não, dar aos verbos significados diferentes.



ANÁLISE TEXTUAL

João 21:15  Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? 



Σιμων Ιωνα, αγαπᾳς με πλειον τουτων


Simão conhecia muito bem o que Jesus ensinou sobre amor. Um amor de alguém dar a vida por outra pessoa e um amor de orar pelos inimigos (Jo 15.13; Mt 5.44). Os apóstolos traduziram por ἀγαπάω agapao esse amor. Portanto, Pedro sabia muito bem o que Jesus perguntava. Na construção grega Jesus amplia o significado do verbo ἀγαπάω agapao, pois a locução comparativa é composta de um adjetivo neutro πολυ polu na forma comparativa formando uma expressão adverbial, pois modifica o verboἀγαπάω agapao. A pergunta de Jesus é se Simão o ama mais que aqueles que estavam ali, logo Jesus identifica a qualidade do amor que pergunta, pois a frase é adverbial modificando o verbo ἀγαπάω agapao. Portanto, πλειον τουτων pleion touton justifica o uso de ἀγαπάω agapao, pois é um amor superior. Pedro sabia sobre o "amarás ao Senhor teu Deus de todo coração" e Jesus evoca um amor superior que não poderia ser como a resposta de Pedro. O Dr. Werner de Boor, em seu comentário do Evangelho de João, afirma: “Ao perguntar, Jesus usou o termo pleno e vigoroso para amor que tem força suficiente para expressar também o amor de Deus.  Pedro não ousa aplicar essa palavra ἀγάπη agape para sua posição perante Jesus" (Comentário Esperança, pág. 209, Editora Esperança). Assim, Jesus repete mais uma vez  se Pedro o ama com o verbo ἀγαπάω agapao. Pedro responde com um sim categórico, mas  com um conceito diferente do que Jesus lhe perguntou. Pode ser que Pedro, quando disse: “tu sabes”, queira se referir ao episodio da negação de Cristo; mostrando com isso que Jesus era testemunha que seu amor era apenas como uma amizade, não como o mandamento dito pelo seu Mestre.

João 21:17  17 Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas?

 λεγει αυτῳ το τριτον, Σιμων Ιωνα, φιλεις με? ελυπηθη ὁ Πετρος ὁτι ειπεν αυτῳ το τριτον: φιλεις με?

João declara que Jesus pergunta a Pedro pela terceira vez, e dessa vez usa o verbo φιλέω phileo. Caso se diga que os significados são sinônimos, estar-se-ia colocando Jesus num dialogo redundante e sem sentido. Por que Jesus perguntaria três vezes a Pedro a mesma coisa? Se alguém argumenta que seria uma forma de Jesus demonstrar a Pedro que ele não o amava necessariamente, apesar de ser um estilo não inteligente, esse argumento aumenta as evidências das diferenças de significado dos verbos, pois Pedro responde três vezes que o ama, só que φιλέω phileo e pela tristeza Pedro não tinha a intenção de responder com satisfação.
O argumento mais forte e decisivo é exatamente o comentário do próprio evangelista João ao afirmar que Jesus pergunta pela terceira vez. João declara que Pedro ficou triste e afirmou o motivo: “Porque Ele lhe disse: Amas-me?”. O próprio autor do livro repete novamente o verbo na expressão que Jesus falou: φιλεις με? “phileis me?”. O autor demonstra que a razão da tristeza de Pedro foi exatamente a expressão que Jesus falou, pois João a repete. Fica óbvio que Jesus estava levando Pedro a refletir sobre o amor objetivo de entrega e de devoção em contraste com uma simples afeição e amizade como traduz o Dr. Hendriksen. Portanto, Pedro se entristeceu porque Jesus não perguntou com o mesmo verbo das duas perguntas, αγαπᾳς με agapas me? Agora, Jesus pergunta com o mesmo verbo que Pedro lhe respondia φιλεις με phileis me?

Alguns argumentam que por existirem algumas outras palavras sinônimas no texto como βοσκω bosko e ποιμανω poimano; αρνιον arnion e προβατονprobaton; οιδα oida e γινωσκω ginosko, dizem que é um sinal que ἀγαπάωagapao e φιλέω phileo querem dizer a mesma coisa. Segundo o Dr. Hendriksen, o motivo de Jesus falar cordeiros e ovelhas demonstra uma generalização da sua igreja, que inclui cuidado com todas as faixas etárias. Embora que pareça a mesma coisa, para os ouvintes era importante ter essas diferenças, como também os verbos βοσκω bosko – alimentar e ποιμανωpoimaino – pastorear podem demonstrar um ministério completo de pastorear incluindo o cuidado de suprir e alimentar. As diferenças dos verbos οιδα oidae γινωσκω ginosko demonstram diferenças semânticas no próprio NT, pois οιδα oida significa um conhecimento mais abrangente (Mt 15.12; Jo 13.7; 16.30), γινωσκω ginosko, mais prático (Lc 10.22; Jo 7.27). Se fosse apenas um estilo, João teria colocado na segunda resposta de Pedro γινωσκω ginosko, mas não foi o caso. Portanto, Pedro poderia estar afirmando que Jesus tanto sabia οιδα (oida) todas as coisas como também sabia na prática γινωσκω (ginosko) por causa da sua negação. Pedro não ousou declarar que o amava no amor mais completo e perfeito de entrega, mas apenas em afeto. Pedro sempre leva a triste lembrança da sua negação e que Jesus o cura levando a enfrentar uma realidade: Embora que Pedro tenha sido falho no amor para com o seu Mestre, ele o ama com um amor eterno. Portanto, esses aparentes sinônimos não desfazem as diferenças de significado.

Realmente tem-se que admitir que a negação das diferenças de significado dos dois verbos empobrece a cena e leva até ter uma noção de um Jesus com um diálogo não inteligente, repetitivo, pois Pedro termina suas respostas sempre dizendo que ele sabia todas as coisas. Dizer que Pedro estava dizendo que amava a Jesus com um amor Pleno é classificar Pedro como arrogante e ainda não tratado.
Sente-se pelos exegetas que vão pelo caminho de uma exegese que elimina a beleza de um texto e que obscurece a beleza da língua grega e da mensagem que Deus queria realmente falar aos povos de todas as nações, deixando de ouvir os gritos do próprio texto que realmente havia uma intenção diferente para os verbos gregos.